Sexta, 09 Dezembro 2016 10:10

Mulheres são humilhadas e têm cabeças raspadas por traficantes

O interrogatório acontece na cozinha de uma casa na Ladeira dos Tabajaras, na zona sul do Rio de Janeiro.

 

O chão está tomado por cabelos de três mulheres cortados à força.

 

De cabeças raspadas, elas são questionadas a tapas e chineladas por traficantes do Comando Vermelho.

 

Em áreas dominadas pelo crime organizado, criminosos estabelecem as leis e as respectivas penas para quem as infringe. No caso de mulheres, namorar pessoas de comunidades rivais, passar informações sobre atividades dos traficantes à polícia, dever para a "boca de fumo" e até brigar em bailes são alguns dos "motivos" passíveis deste tipo de tortura.

 

O UOL teve acesso a dois vídeos recentes em que mulheres têm cabeças e sobrancelhas raspadas contra a vontade delas e que revelam que essa prática é realizada em favelas no Rio e na Bahia.

 

O Disque-Denúncia fluminense registrou 27 denúncias de mulheres torturadas por traficantes desde o ano de 2013 até o presente momento. Conforme relatos anônimos que chegam ao serviço, as adolescentes são as maiores vítimas da ação dos criminosos, que impõem suas regras em diversas comunidades do Estado.

 

Esse é o caso de uma das três mulheres que foram interrogadas, no dia 5 de novembro, por traficantes da Ladeira dos Tabajaras, uma favela incrustada entre os bairros cariocas de Copacabana e Botafogo. Dominado pelo Comando Vermelho, o lugar possui uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) desde 2010.

 

Segundo o delegado Deoclécio Francisco de Assis Filho, policiais militares da UPP Tabajaras estavam atrás de criminosos da região quando fizeram uma batida em uma casa e encontraram as três mulheres e um grupo de traficantes. Eles teriam se escondido na casa e obrigado uma delas a dizer que era mulher de um deles. Todos foram levados pela PM para a delegacia e as três prestaram depoimento. Ao voltar para a favela, elas foram acusadas pelos traficantes de serem "X-9" (dedo-duro) e foram torturadas.

 

Assis Filho está à frente da DPCA (Delegacia da Criança e Adolescente) e diz que foi aberto um inquérito, mas ele continua parado na delegacia porque as mulheres nunca voltaram para prestar depoimento e reconhecer os agressores. "O caso não foi adiante. Dependia de elas voltarem à delegacia para prestar depoimento", disse o delegado.

 

A mãe de uma das vítimas teria avisado ao delegado que a Defensoria Pública orientou para que elas não voltassem para prestar depoimento. A informação não foi confirmada pelo órgão. "Traficantes matam, mutilam, humilham. Elas têm sorte de estarem vivas", acrescentou o delegado.

 

"Só para reforçar: elas não são as únicas vítimas. Só tiveram a 'sorte' de ter o caso divulgado. Eles batem e raspam o cabelo das meninas que brigam no baile", diz um morador da Ladeira dos Tabajaras, sob a condição de anonimato. "Tem coisa que só que quem é da comunidade é quem sabe."

 

A Polícia Civil do Rio informou, por meio de sua assessoria, que as vítimas foram convocadas novamente para depor e identificar fotos dos suspeitos. No vídeo, é possível observar que são citados dois nomes de traficantes que atuam naquela localidade, sendo que um deles, após a realização de um trabalho de inteligência por policiais civis da 12ª DP, já foi identificado, afirma a nota.

 

O UOL apurou que a Defensoria Pública tentou colocá-las no programa de proteção à testemunha, mas elas não quiseram se afastar da família. (Com UOL)

 

 

 

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