"É parecido com o diretor que delega para sua secretária a tarefa de lembrar seus compromissos, ou com usar uma agenda de telefones para registrá-los", explica o neurologista Paulo Bertolucci, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Utilizar um recurso externo para não precisar lembrar de algo não é exatamente novo — vale lembrar das aulas de história, em que o aparecimento da escrita é considerado um dos grandes marcos da evolução da humanidade. No entanto, quando informações importantes são confiadas ao mundo digital, há uma diferença na maneira como esses dados são acessados.
"Para achar um dado em um livro, preciso saber qual é o livro e lê-lo até achar o que preciso. É um grande trabalho: por isso, muitas vezes retemos esses dados conosco para não ter de encontrá-los outra vez", diz o pesquisador Adrian F. Ward, da Universidade de Austin, nos Estados Unidos.
Na internet, porém, basta um clique para vasculhar um sem-número de informações. Segundo Ward, o acesso rápido e a quantidade de textos faz com que o cérebro humano não considere útil gravar esses dados, uma vez que é fácil encontrá-los de novo rapidamente. "São dados que ficam apenas na nossa memória de trabalho, que é rapidamente descartada", explica Bertolucci, da Unifesp. "É como quando consultamos o telefone de uma loja: após discar e fazer a ligação, não precisamos mais dele."

Problema é ainda mais grave
O problema pode ser mais grave do que se imagina: além de recorrer à internet para guardar informações, muitas pessoas têm a impressão de que os dados online fazem parte de sua própria memória.
Em sua tese de doutorado na Universidade de Harvard, Adrian F. Ward fez o seguinte experimento: 155 pessoas foram divididas em três grupos para responder a um questionário com 10 perguntas de conhecimentos gerais: um grupo não teria acesso ao Google para pesquisar respostas, enquanto os outros dois poderiam buscar soluções na internet — um deles, no entanto, receberia resultados falsos à correção de seus testes, acreditando que teriam 80% de aproveitamento.
Na sequência, Ward pediu para que os três grupos estimassem seu desempenho caso respondessem a um teste semelhante sem a ajuda da internet. O grupo que recebeu o feedback falso apostou que teria o melhor desempenho, com 65% de aproveitamento em um novo teste — quem não pode recorrer à internet apostou que teria 4 acertos em 10 questões, enquanto os usuários que tiveram acesso à rede mas receberam corretamente seus resultados previram que teriam 55% de acertos.
Não vale ‘colar’. O ‘efeito Google’ já tem suas consequências sendo sentidas na sala de aula, ao provocar mudanças na forma como crianças e adolescentes aprendem. "É difícil convencer os estudantes de que eles precisam guardar um dado, porque hoje a informação é uma commodity, que pode ser encontrada em qualquer lugar", diz a pesquisadora em neurociência Kathryn Mills, da University College of London.
Segundo Claudio Martinelli, diretor da Kaspersky, o efeito Google também tem lados positivos, como o fato de que não precisar lembrar de todos os detalhes na hora de resolver um problema pode liberar a criatividade para encontrar a solução. "As informações estão todas a um clique, de forma que o cérebro pode fluir livremente", diz ele, baseado em uma pesquisa realizada pela consultoria em 2015, com profissionais de negócios de 13 países.
Busca de dados vira diferencial
No mundo corporativo, o ‘efeito Google’ também já gera reflexos. De acordo com Maria Cândida Azevedo, diretora da consultoria em carreira da People & Results, os jovens que hoje chegam ao mercado de trabalho têm como um de seus principais trunfos a capacidade de encontrar informações de forma muito rápida. "Apesar de ter mais informações, essa geração tem baixa profundidade na hora de elaborar suas decisões", diz Maria Cândida.
Para a consultora, esse problema é decorrente não só do ‘efeito Google’, mas também da baixa qualidade do ensino no País. "Hoje, em um processo seletivo, o candidato que tiver profundidade vai se destacar na multidão", explica. Maria Cândida ressalta ainda que, se em tempos de bonança econômica, a necessidade de mão de obra favorecia a contratação de profissionais "sem tanta profundidade", em tempos de crise são justamente os funcionários que têm menos a oferecer que são demitidos mais rápido.
Para quem ficou preocupado, muita calma nessa hora: segundo os especialistas, há meios para conseguir reter as informações obtidas pela internet e exercitar melhor sua memória. Atividades como ler e jogar xadrez são recomendações clássicas para manter o cérebro ativo, mas é possível ir além. (Com Bem Paraná)